Livro de Bernstein é homenagem ao bom jornalismo

A dica de leitura da vez é o livro Chasing History: A Kid in the Newsroom, de Carl Bernstein, jornalista que ficou conhecido pelas reportagens que revelaram o caso Watergate. Na autobiografia ele relembra o início de carreira e momentos históricos dos EUA nos anos 60. O livro de Bernstein é uma homenagem ao bom jornalismo.

O nome Carl Bernstein é conhecido no meio jornalístico. Junto com Bob Woodward investigou o caso Watergate. As notícias produzidas pela dupla de repórteres do The Washington Post levaram o caso à público, culminando com a renúncia de Richard Nixon, então presidente do Estados Unidos. A história contada pelos dois no livro Todos os Homens do Presidente serviu de base para o filme homônimo de 1976, com Dustin Hoffman interpretando Bernstein e Robert Redford no papel de Woodward. Para quem não conhece fica a dica de um bom filme não só para jornalistas (disponível na plataforma HBO Max).

Viagem ao passado

Bernstein é escritor além de repórter investigativo. Em 2022 lançou o livro Chasing History: A Kid in the Newsroom. A nova obra é o oposto de Todos os Homens do Presidente que mostra Bernstein como um repórter experiente no centro das atenções em um grande furo de reportagem.

Em Chasing History ele nos leva para os seus primeiros anos de profissão quando, aos 16 anos, começa a trabalhar no Evening Star, jornal vespertino de Washington. O livro é uma homenagem aos jornalistas que moldaram a profissão no que há de melhor. Sem o glamour da grande reportagem, somente o bom jornalismo. É uma viagem ao passado do jornalismo e dos Estados Unidos.

Review do livro Chasing History no Nieman Storyboard (em inglês).

Bernstein é contratado como copyboy. Entre outras funções levava as laudas com notícias para os revisores e editores e distribuía para as editorias competentes cada mensagem que chegava via telex das agências de notícias. Depois foi transferido para a equipe do dictation bank. Quem nunca viu em filmes antigos os jornalistas correndo para os telefones públicos para passar a informação para a redação. Bernstein era um dos que ficava na redação, datilografando as informações recebidas dos repórteres por telefone.

A primeira percepção no livro é o tamanho da estrutura do jornal. O texto passava por várias mãos com a intenção de aprimorar o que seria publicado. Os jornalistas dedicavam mais tempo à cobertura das notícias. Tanto pela forma de fazer jornalismo quanto pelos desafios técnicos. Na cobertura de grandes eventos as dificuldades iam desde assegurar que o repórter tivesse uma cabine telefônica livre para passar as informações até levar o filme fotográfico para revelação a tempo, em uma cidade com as ruas tomadas pela população. Isso na época da linotipo, que exigia muito maquinário, espaço, linotipistas e tempo para imprimir.

Entrevista com Bernstein no CBS Sunday Morning (em inglês).

Com o tempo Bernstein recebe mais funções e passa a auxiliar na cobertura de grandes eventos e a acompanhar reuniões, produzindo suas primeiras notícias. Inicialmente somente como treino até ser considerado apto para ter seus textos publicados no jornal. No decorrer do livro vamos conhecendo o processo de treinamento do Star e de autoaprendizado de Bernstein.

Era uma época em que o jornalismo era muito mais que a profissão para aquelas pessoas. Suas vidas giravam em torno do jornal. E Bernstein tinha a oportunidade de passar por diferentes editorias, acompanhar o trabalho de rua dos repórteres, o cuidado com as pessoas envolvidas nas reportagens, a conexão com as fontes e o conhecimento da cidade.

“I’d gotten it in my head that all good reporting was pretty much the same thing: the best version of the truth you could come up with. It wasn’t just stringing together disparate facts, an approach that could actually undermine the truth (witness my story on religion versus football at the University of Maryland), but it was also about finding a way to put context into a story. There was another thing I’d noticed about the best reporters at the Star: they didn’t get fooled by conventional wisdom. I knew enough from talking to them—and from my own limited experience—that they were constantly surprised by where the facts took them. After doing the reporting, rarely did a story fit with their first assumptions of where it would lead.”

“Eu tinha para mim que toda boa reportagem era praticamente a mesma coisa: a melhor versão da verdade que você poderia obter. Não era apenas juntar fatos díspares, uma abordagem que poderia até mesmo prejudicar a verdade (como em minha matéria sobre religião versus futebol na Universidade de Maryland), mas também era sobre encontrar uma maneira de contextualizar uma história. Havia outra coisa que eu tinha notado sobre os melhores repórteres do Star: eles não se deixavam enganar pela sabedoria convencional. Eu sabia o suficiente por conversar com eles – e por minha própria limitada experiência – que eles eram constantemente surpreendidos por onde os fatos os levavam. Depois de fazer a reportagem, raramente uma matéria se encaixava em suas primeiras suposições sobre para onde ela iria.”

Extraído de “Chasing History: A Kid in the Newsroom (English Edition)” de Carl Bernstein.

Bernstein também buscava sozinho o aprendizado da profissão. Observou como os repórteres se relacionavam com suas fontes e quando estava na cobertura de eventos e mesmo nos momentos de folga estabeleceu vínculos com pessoas que seriam suas fontes. Constantemente analisava reportagens publicadas para aprender com o texto dos melhores jornalistas. Aos poucos também foi formando um arquivo com informações e notícias que considerava interessantes.

Em seus primeiros anos no jornalismo Bernstein presenciou fatos históricos que até hoje mantêm sua importância. A posse de John Kennedy como presidente dos Estados Unidos e sua morte, a conquista do espaço com Gagarin, a invasão da Baía dos Porcos e a Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade. Presenciou momentos históricos na luta pela igualdade racial e dedicou-se a reportagens sobre o assunto, criando laços com muitas fontes ligadas ao movimento e inclusive se envolvendo pessoalmente nas manifestações. Bernstein retrata o clima da época e divide com o leitor os sentimentos de um jovem, chegando aos 20 anos, se tornando um jornalista e formando suas convicções como cidadão.

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